Instituto Brasileiro de Museus

Museu da Inconfidência

Museu da Inconfidência destaca obra de Guarany no Mês da Cultura Popular

publicado: 21/08/2020 16h20, última modificação: 22/11/2020 12h40

Em agosto, mês de celebrações da Cultura Popular no país, o Museu da Inconfidência comemora a data com uma das expressões culturais mais populares do Brasil, trazendo ao conhecimento do público detalhes de uma peça genuína de seu acervo: a carranca de proa de autoria de Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany (1884-1987).

Carranca de proa. Autoria: Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany. N de Inventário: 346. Acervo MDINC/Ibram (Crédito: Aldo Araújo)

Comumente conhecido como Guarany, esse artista popular se destacou como o maior representante na arte da manufatura de carrancas. Nascido no nordeste do Brasil, Guarany é bisneto de José Dy Lafuente, jesuíta espanhol, refugiado do Convento da Bahia que se amasiou com uma negra originária de Moçambique, e estabeleceu sua moradia em Curacá, próximo a Juazeiro (BA), nas margens do rio São Francisco. Neste local, constituiu sua família e trabalhou como professor.

Para se engajar ainda mais nesse contexto imaginário resultante da miscigenação das culturas portuguesa, africana e ameríndia, cabe a leitura da citação do Prof. Dr. Jayro Luna da Universidade de Pernambuco/UFFPG em seu artigo ‘Uma Mitologia das Carrancas do Vale do São Francisco’, em que o especialista destaca a importância e a representatividade das carrancas dispostas nas embarcações:

As carrancas, em geral, são apresentadas como figuras com bocas enormes abertas mostrando, por vezes, dentes caninos proeminentes. Tal boca e dentes têm a intenção de conotar a agressividade da figura, feroz na ação de proteção da embarcação, que ao cabo, representa o próprio corpo do animal formado pelo conjunto barco-carranca. Assim, metamorfoseado em animal aquático que desliza pelas águas do rio, sua boa e seus dentes formam o primeiro aspecto dessa força animal e vital. Abrindo a boca, supõe-se um rugido, ou em alguns casos, um canto de aviso aos espíritos malignos da chegada da embarcação, bem como da força que a protege. Os olhos da carranca, por sua vez, grandes também, conotam a noção de que tudo a carranca vê, não apenas o mundo concreto, físico, mas principalmente o invisível, o espiritual e mágico, o mundo dos espíritos.

O objeto esculpido em madeira (cedro) representa uma cabeça de leão estilizada e foi incorporado à coleção museológica do Museu da Inconfidência em 1948, por meio de aquisição do Sr. Antônio Joaquim de Almeida pelo extinto DPHAN – Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ao qual o museu se encontrava vinculado à época. No Setor de Documentação do museu, constam registros de antigos inventários, datados de 1955 e 1970, respectivamente, com breves descrições feitas pelos museólogos Orlandino Seitas Fernandes, ex-diretor do museu, e D. Lygia Martins Costa, figuras icônicas na área de documentação e peças chaves na pesquisa de obras de arte. Porém, é importante ressaltar que a identificação de autoria foi realizada apenas em 2001, após confirmação do Presidente da Comissão Mineira de Folclore, Sr. Domingos Diniz ao Dr. Rui Mourão, Diretor do Museu da Inconfidência, que “(…) Segundo o professor Paulo Pardal, um dos mais profundos estudiosos das carrancas do São Francisco, essa carranca do Museu é de autoria do mestre Francisco Biquiba Guarany. É das genuínas, pois navegou nas velhas barcas de frete no São Francisco.” (Fonte: Arquivo MDINC)

A carranca de proa do MDINC foi símbolo da 37ª Semana Mineira de Folclore em homenagem aos remeiros e ao escultor Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany, cuja primeira carranca foi esculpida em 1901.

Por longos anos, a raridade, integrante da coleção do Museu da Inconfidência, podia ser apreciada pelos visitantes em um vão da Sala Vida Social, juntamente com dois objetos de transporte, conforme registrado em fotografia de época. Em 2006, a peça não foi contemplada na concepção do novo projeto museográfico, ano em que o museu teve sua exposição de longa duração reinaugurada.

Visão geral da Sala Vida Social, local onde a carranca de proa se encontrava exposta até 2006, quando da reformulação da exposição do Museu da Inconfidência (Foto: Arquivo MDINC)

Apesar de não ter sido contemplada para compor o circuito expositivo do projeto museográfico do Museu da Inconfidência em 2006, a carranca de proa de Guarany, classificada como acessório de transporte marítimo, catalogada sob o número de inventário 346, se encontra acessível na web por meio da plataforma Tainacan, fruto de parceria do Ibram com a UFG, que disponibiliza todo o acervo museológico da instituição. Acesse dados da peça no link: http://museudainconfidencia.acervos.museus.gov.br/acervo-museologico/carranca-de-proa/

Há cinco anos a peça foi cogitada para integrar a exposição “A viagem das carrancas”, no período de 01 de agosto a 18 de outubro, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, com curadoria de Lorenzo Mammi. Apesar de não ter participado diretamente, constou no catálogo da mostra, dada a importância da obra nessa exposição temática. O curador explicou sobre a dimensão do projeto com especial destaque ao artista Guarany:

“Desde o início, as carrancas eram conhecidas pelos traços grotescos, que se tornaram uma característica recorrente do gênero. No entanto, muitas das mais antigas são bastante realistas. É o caso de uma série de cabeças de leão, de contornos quase clássicos, e da maioria dos cavalinhos, usados geralmente em embarcações menores. Todas expostas na Pinacoteca”, explica Mammì. Também faz parte desta exposição a figura esculpida na barca Americana por Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany (1882-1985), o escultor de carrancas mais conhecido e respeitado do país. Ele começou a entalhar carrancas em 1905 e essa foi a terceira da sua carreira, finalizada em 1907.”
(Fonte: https://pinacoteca.org.br/programacao/a-viagem-das-carrancas/)