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Ponto a ponto, insistir no gesto é uma forma de permanecer

Dando início à partilha das produções textuais mais recentes sobre a exposição Pele e Osso, de Fani Bracher, o Museu da Inconfidência disponibiliza o texto curatorial, assinado por Carla Cruz.

Detalhe de uma das obras em exposição na Sala Athaíde.

As paisagens que se apresentam em Pele e Osso não se deixam apreender à distância. Elas exigem aproximação, pedem tempo, solicitam um olhar que tateia. Tecidos, linhas e camadas de pintura constroem planos que não representam o mundo, mas o sentem. São paisagens abstratas que se organizam como campos sensíveis do tempo, onde o gesto se deposita lentamente e a matéria guarda memória. Paletas frias instauram um clima de suspensão, quase silencioso, se contrapondo às composições em tons terrosos, que surgem como resíduos de calor e matéria; rastros de uma experiência vivida que insiste em emergir.

Aqui, o tecido se configura como pele — não apenas como delimitação física, mas como fronteira ontológica do ser. Invólucro de contato e de exposição, a pele torna-se metáfora de um lugar onde o interior e o exterior se atravessam. O tecido, enquanto epiderme simbólica, recebe o fio como quem recebe uma incisão ou um cuidado. Cada ponto marca a passagem do tempo, cada costura revela uma tentativa de permanência. Não há ocultação do gesto — ao contrário, ele se explicita, afirmando a vulnerabilidade como condição constitutiva da forma.

Após quatro décadas de produção contínua e uma centena de exposições realizadas no Brasil e no exterior, Fani realiza a sua segunda mostra individual no Museu da Inconfidência, desde sua primeira exibição em 1988. Esse retorno não se configura como ato retrospectivo, mas como reposicionamento crítico de uma pesquisa que permeia diferentes momentos da arte brasileira.

As obras aqui apresentadas, inéditas, reafirmam uma prática que opera em zonas de interstício — entre pintura, desenho, objeto e assemblage têxtil. Inscrita em uma tradição que valoriza a poética do fazer, a materialidade e o tempo do gesto, estas produções de Fani Bracher dialogam com debates centrais da arte contemporânea brasileira, sobretudo aqueles relacionados à processualidade, à corporalidade e à resistência à aceleração.

A relação entre dentro e fora, entre o que se mostra e o que permanece latente, permeia todo o conjunto. O único objeto da mostra, um osso, se coloca como elemento de tensão. Estas obras operam nesse espaço limiar em que o íntimo se projeta, afirmando a superfície como território de passagem e de registro de memória. Essas paisagens operam como abrigos instáveis, lugares de recolhimento atravessados por uma permeabilidade contínua. O expresso convive com o não-dito, e é justamente nesse campo de fricção sensível que este conjunto de obras encontra sua densidade poética.

A tarefa da artista, reiterada ao longo desses trabalhos, pode ser compreendida à luz da reflexão de Hannah Arendt sobre a ação como dimensão fundamental da condição humana. A repetição do cerzir — ponto após ponto, linha após linha — não é mecânica nem vazia: é carregada de intenção. Cada gesto reafirma a escolha de continuar, de insistir no fazer como afirmação ética e estética. O trabalho não busca a resolução, mas assume o processo como espaço de sentido e permanência.

Fani Bracher nos convida a repousar o olhar sobre a trama de fios e a observar o tempo. Seu gesto tenta empreender uma costura do tempo — ensaia pausá-lo, detê-lo, ainda que saiba dessa impossibilidade. Diante disso, ela captura o tempo na paisagem. Cada obra condensa uma duração, e o verso do bordado, tradicionalmente oculto, afirma-se como obra autônoma, revelando que não há avesso neutro nem tempo desperdiçado. Tudo é registro. Tudo é movimento.

Esta recente produção da artista a inscreve numa tradição de mulheres cujas investigações privilegiam o gesto, a repetição e a temporalidade como operadores formais e conceituais da experiência artística. Nesse horizonte, seu trabalho estabelece ressonância com a pesquisa de Anna Maria Maiolino, sobretudo na compreensão da matéria como extensão do corpo e da ação como medida do tempo vivido. Tal como em obras de Mira Schendel, a superfície torna-se território de inscrição — espaço em que o gesto mínimo se converte em pensamento sensível, em escrita do indizível. Numa dimensão têxtil e processual, sua prática aproxima-se de Sonia Gomes, ao afirmar a materialidade como extensão da memória, perpassada por suturas, costuras e insistências manuais. Em Fani Bracher, o gesto se expande como experiência existencial: o ponto insiste em tornar-se linha; a linha prolonga-se em gesto; e o gesto, reiterado no tempo, afirma-se como vida em contínuo movimento.

Carla Cruz
Curadora