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A arte por um fio

Dando continuidade à partilha de produções textuais recentes sobre a exposição Pele e Osso, de Fani Bracher, o Museu da Inconfidência apresenta trechos do texto assinado por Ângelo Oswaldo.

Obra em exposição na sala Athaíde

Levada a acompanhar um quadro crítico em quarto de hospital, a pintora Fani Bracher logo percebeu que a permanência prolongada a afastava, incontornavelmente, das tintas e das telas. A necessidade intrínseca de continuar a criar fez com que a artista encontrasse a resposta na ponta de uma agulha.

Assim, começou a pintar com a linha percorrendo o tecido, e era como se a pintura toda renascesse. Foi o que revelou a quem, com encantamento, assistiu à inauguração de sua mostra no Museu da Inconfidência.

Em cada uma das telas da produção recente, ela alcança uma expressão singular, que traduz a força e a contundência da sua arte de pintar. Imagens densas de nuvens e morros enredam situações em que o absurdo atravessa naturalmente a paisagem. “Solidão, recife, estrela”, como num poema célebre, os volumes compõem uma sinfonia de silêncio e pasmo. Escadas e muros são formas recorrentes, assim como ossos, árvores e cactos, e uma dessas obras arrebatou de tal modo a poeta Adélia Prado que se tornou a capa de seu recente livro “Jardim das Oliveiras”. A pintora não podia parar, tamanho o vigor do desempenho plasmado sobre a tela.

Sem outra saída, o limite foi vencido por um fio. Essa epifania no processo criativo é reveladora da diferença do trabalho de Fani Bracher daqueles que, na meada de um Leonilson, procuraram uma nova abordagem do desafio da obra de arte. O bordado tem risco, e arriscar requer domínio da criação, que pressupõe enfrentamento e ruptura.

A espera e a esperança, que teceram os fios de Penélope, produziram a nova manifestação criadora, e aí estaria, sim, no exercício paciente do incessante ânimo estético, a obsessão que conduziu um Artur Bispo do Rosário ao bordado, com a explosão alucinante do seu extravasamento. É a arte que se instala em surpreendente suporte para sustentar o gesto que não se suspende.

Fani Bracher atinge um resultado impactante, ao pintar com agulha e fio, tecendo uma pintura tão perturbadora quanto as imagens feitas de pincel e tinta. O verso e o reverso do tecido são as duas faces da criação, uma e outra instigantes e inquietadoras. A montagem da exposição permite sejam ambas contempladas. A artista borda narrativas que amarram o espectador ao curso das linhas, como na série em que Sísifo – símbolo mítico do destino implacável e da força da paciência – arrasta o seu bólido na montanha. São cartas manuscritas, histórias, mapas, sobre as quais o olhar aprimora o foco ou se distrai, abrange o todo e desce aos detalhes, mas se deixa emaranhar na trama e desalinhar seu espírito diante das provocações da arte.

“Pele e osso”, título da apresentação na Sala Manuel da Costa Athaíde, guarda referências diversas, confrontando o público aos ossos pintados e à epiderme do tecido. A artista está liberta. Ossos saltam das telas para se tornarem suportes eles mesmos. Os fios capilares tensionam a superfície e instauram a pintura que Fani Bracher reinventa, ao dominar a linha do tempo perfurada no espaço.